O Corredor Infinito – Parte 1

Data: Meados de 2008 e 2009
Época: 9° ano ou 1° colegial
Idade: 15 ou 16 anos

Primeira Noite

            Era para ser um sonho qualquer em uma noite comum, mas meu engano não podia ser maior.

            Começou em uma bela campina, embaixo de um sol de verão, com flores rosas e brancas contrastando com o verde da grama, exalando um aroma doce e agradável que vinha com a leve brisa. Estava entre amigos, nos divertindo naquele lugar maravilhoso, rindo e conversando muito. Dentre eles havia uma garota loira da minha idade; seus cabelos eram longos e curvos, ela era pequena e esguia. Eu a tratava como amiga, apesar de não ter certeza de onde a conhecia.

            Em um certo momento eu me junto a ela para conversar e a garota segura minha mão, me chamando para ir com ela para o topo de uma colina afastada dos demais. No alto dessa colina havia algo que não parecia estar em seu devido lugar. Havia uma porta, que estava em pé e fechada, feita de uma madeira clara, quase branca. O estranho é que não havia paredes ou teto, era apenas uma porta sozinha no alto de uma colina.

            – Para que serve essa porta? – Eu pergunto a garota, com clara confusão.

            – Você verá! – Ela diz com um risinho, como se deliciasse com o segredo que ia me mostrar.

            Sem delongas, a garota abre a porta, levando para um lugar muito escuro. O esperado era apenas ver a colina, como qualquer porta, mas essa aparentemente não era uma porta normal. A garota nos leva para além da porta e a fecha, para dentro de um quarto escuro, eliminando a luz clara que vinha da campina. Ao me acostumar com a pouca iluminação do lugar, vejo que estamos em um longo corredor, que se estende infinitamente, a ponto de não se enxergar o seu fim. As paredes são repletas de outras portas idênticas á que acabamos de passar, me causando até a dúvida de pôr qual porta havíamos entrado. O teto também não era visível, se alongando para dentro da escuridão acima, mas o curioso é que o corredor magicamente era iluminado por luzes amareladas que não tinham nenhuma origem aparente.

            Minha colega vira para mim e abre os braços como se estivesse mostrando com orgulho o esplendor desse corredor tão estranho.

            – Este, é o seu subconsciente. Cada uma dessas portas guarda seus pensamentos mais íntimos, as mais velhas e novas lembranças e todos os sonhos que você já teve ou terá na vida.

            A explicação parecia ser surreal demais para acreditar no começo, mas ao olhar novamente para este lugar, que justamente tem a característica de ser surreal, eu fico abismada. Logo já quero fazer perguntas de como, onde e porque, mas nenhuma frase parece sair com muito sentido, já que estava completamente surpresa e confusa.

            – Calma. O melhor jeito de entender é experienciando – Novamente ela segura minha mão e me guia até uma porta, a qual ela abre e entramos para um mundo novo.

            Durante toda a noite, ela me guia por várias portas, ou seja, por vários mundos da minha imaginação, por sonhos mais incríveis que já tive e pelas memórias mais deliciosas que guardo com muito carinho. A alegria e emoção era interminável e era algo que eu gostaria que nunca acabasse. Não me sentia cansada, muito pelo contrário, eu na verdade sentia cada vez mais energia! A minha guia por esse mundo do subconsciente, ia se tornando cada vez mais uma amiga próxima.

            Por fim nós voltamos mais uma vez para o corredor e toda agitada eu já queria escolher uma porta nova para entrar, porém a minha amiga já não parecia estar no mesmo animo que eu. Ela parecia estar séria demais, ou preocupada e até mesmo um tanto quanto irritada?

            – Você não pode fazer isso – Ela solta esta frase sem explicações, parecendo que eu havia feito algo errado.

            – Fazer o que? Fiz algo de errado? – Eu pergunto confusa, mas ela apenas insiste na mesma coisa sem me explicar nada, o que me deixa cada vez mais ansiosa e até mesmo receosa dela.

            Ela me segura forte pelos ombros, se aproximando, agora parecendo ainda mais nervosa e definitivamente irritada comigo. Ela fala rápido, como se estivesse com pressa, como se ela tivesse tempo para me fazer entender.

            – Você não pode acordar! Para! Você não pode! Vai destruir tudo!

            Cada frase forte dela parece dar uma estremecida em todo o ambiente, como se fosse um terremoto, mas o chão não treme; sua voz vai ficando abafada, como se estivesse cada vez mais longe; minha visão vai ficando turva e escura, como se estivessem lentamente diminuindo as luzes. Isso tudo faz com que um pânico comece a crescer dentro de mim e o som do meu coração vai subindo, até que cobre a voz da garota. Tudo fica escuro e o medo me consome, a única coisa que consigo sentir é meu corpo tremer.

            Eu acordo.

            Estou deitada na minha cama, ofegando, sentindo meu coração acelerado. Olho em volta, enquanto lentamente entendo que tudo aquilo não se passou de um sonho… um sonho muito bizarro, que passa repetidas vezes em minha cabeça durante o resto do dia. Não conseguia parar de pensar nele, principalmente porque algo me perturbava e era o fato de que não conseguia lembrar do rosto da garota do meu sonho. Era como se fosse um grande borrão. Era como se essa parte em especifico fosse deletada, como se não me fosse permitido lembrar.

            Mal eu sabia que a encontraria novamente, na próxima noite, no próximo sonho.

Continua em breve…

Arte de Vitrine: Aline Barone

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Celia
Celia
2 anos atrás

UAU!
Aline, sua arte em escrever cativa e prende atenção do leitor.

Entrei neste corredor infinito, me contagiei e minha imaginação voou longe.
Adorei!

Ainda bem que não acabou.
Foi só a parte 1.
Já ansiosa aqui e curiosa pra ver a parte 2.